Véspera de 2013, últimos dias de 2012. Durante a semana, um desfile de notícias mais que previsíveis: calor recorde no Rio de Janeiro (temperatura jamais registrada anteriormente…); atriz global dando vivas à Belo Monte por falta de ar condicionado no aeroporto Santos Dumont (ainda faz piadinha, dizendo-se preocupada com a falta de energia no Projac e uma suposta perda de emprego em função disso…); relatórios internacionais apontando o Brasil como grave infrator de direitos humanos, sobretudo contra indígenas, mas também negros, mulheres, homossexuais e outras ; tempestades magnéticas e tempestades solares no noticiário do canal regional (pesquisadora local prova relação entre “explosões solares” e internações por infartos e problemas correlacionados) etc etc.
Na rede há notícias sobre segurança hídrica, ou melhor: insegurança hídrica, em BH e toda MG, com denúncias contra os planos da Vale do Rio Doce, na Serra do Gandarela e mais denúncias contras mineradoras pelo portal do Conselho Indigenista Missionário… Somam-se retrospectivas sobre o ano, nas quais fica evidente o massacre vivido por povos inteiros (falantes de quase 200 idiomas diferentes!), dentro do nosso território nacional, esse “Brasilzão” sem fronteiras… Tem notícia sobre as (treze?) tribos isoladas na Amazônia brasileira (fronteira com Peru) que estão no centro de conflitos, com mineradoras de gás e petróleo – por algum motivo sincrônico passo os olhos sobre uma imagem do filme Avatar: sugestivo…
Por fim, tem também denúncias sobre como os problemas ambientais estão vinculados com as “soluções” vendidas e ofertadas como compensações, pelos mesmos causadores dos transtornos, observados em círculos viciosos escandalosos, que funcionam à base de veneno – e não há cura possível se o envenenamento é crescente e crônico. É a lógica sinistra de querer sanar o aquecimento global, com mais ar condicionado e menos florestas… Ou negá-lo, sem nenhum medo do ridículo…
Resisto. Melhor não ceder ao “negativo”… Pensando em todos os “sábios empoderados”, nas falcatruas, no sistema financeiro bancário, no nióbio e na bauxita, nos eucaliptos e desertificações, na agroindústria com pesticidas mortais, no cinismo dos profissionais do meio ambiente que assinam esses estudos ambientais de certas empresas e seus marqueteiros inescrupulosos e em todas as instituições vendidas para a “engrenagem louca”… – especialmente pensando neles e também na política partidária em geral, acabei me lembrando das palavras de um velho (sábio?) chinês… Seu nome é Chuang Tzu, e uns 300 anos antes de Cristo (ou seja, há cerca de 2.300 anos atrás) ele escreveu algo mais ou menos assim:
<< As precauções tomadas contra ladrões que abrem cofres, examinam sacolas ou saqueiam gavetas, consistem em mantê-los com cordas e trancá-los com fechos e cadeados. É a isso que o mundo chama sagacidade. Porém, chega um ladrão musculoso e leva a gaveta nos ombros, com o baú e a sacola, e corre, fugindo com tudo. Seu único receio é que as cordas, fechos e cadeados não sejam bastante fortes! Por conseguinte, o que o mundo costuma chamar sagacidade não é simplesmente assegurar as coisas para um ladrão musculoso? E atrevo-me a afirmar que nada daquilo que o mundo chama sagacidade é outra coisa senão poupar para os ladrões fortes; e nada do que o mundo chama sabedoria prudente é outra coisa senão entesourar para os ladrões fortes.>>
- Como diria a Bíblia: “Nada de novo sob o Sol”.
Como diria Raul Seixas: 13 vezes anteontem…
“Onde está seu tesouro, ali está seu coração”. Em 2013, escolha bem o que valorizar. Cuidado com as correntes e cadeados que possam transmitir uma falsa impressão de segurança, enquanto empacotam seu tesouro e o enviam “pra viagem”… Quando possível, escolha tesouros que não podem ser roubados – e não permita que lhe roubem aquilo pelo quê a natureza toda já pagou um preço caro: sua existência, seu tempo, sua vida e a vida do organismo planetário. Em 2013, se tiver oportunidade: faça escolhas conscientes – escolhas de verdade – escolhas pela verdade, tal como você for realmente capaz de compreendê-la, senti-la, vivê-la, experimentá-la.
(Originalmente publicado no Portal Fala Gente, em 30/12/2012.)
http://falagente.com/o-velho-sabio-chines-2-300-anos-depois/
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